Todos as mensagens anteriores a 7 de Janeiro de 2015 foram originalmente publicadas em www.samuraisdecristo.blogspot.com

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Francisco George: o aborto visto da Torre de Marfim.


Fomos ontem brindando com umas maravilhosas e extraordinárias declarações do responsável da Direcção-Geral de Saúde. Segundo Francisco George a lei do aborto é um "sucesso".

Eu, que não possuo a clarividência de Francisco George, não consigo deixar de perguntar: qual é o sucesso da lei? São as 169.000 crianças que foram eliminadas na barriga da mãe? É o facto de 1 em cada 5 gravidezes terminar em aborto? As repetições serem, pelo menos (porque só se sabe se é uma repetição se a mulher o declarar) 1 em cada 3 abortos?

Ou o sucesso é o facto de em Portugal haver mulheres a abortar para não serem despedidas? Ou de mulheres que abortam para não levarem sovas dos companheiros? Ou para não serem expulsas de casa dos pais?

Ou será que o sucesso da lei é não haver qualquer tipo de medida de apoio às grávidas em dificuldade? Será que é a proibição da Direcção-Geral de Saúde de haver qualquer informação sobre o apoio a quem quer manter o seu bebé nos hospitais e centros de saúde? Se calhar o sucesso é a ausência de acompanhamento e aconselhamento no Sistema Nacional de Saúde às grávidas em risco de abortar.

Eu percebo que quem está na sua torre de marfim, olhando apenas para relatórios de números escolhidos à conveniência da sua ideologia, possa sentir-se tentado achar que a lei que liberalizou o aborto é um sucesso. Mas seria de esperar que a pessoa responsável pela Direcção-Geral de Saúde tivesse um pouco mais de conhecimento do terreno.

Mas como pouco depois de anunciar o sucesso da lei, Francisco George afirma que antes recebia alguns protestos mas agora "já não se fala do assunto", é fácil perceber que o senhor Director Geral vive completamente alheado da realidade. Alheado das dezenas de instituições, que com poucos recursos, ajudam centenas e centenas de mulheres e crianças em risco de aborto. Alheado da Lei de Apoio à Maternidade e Paternidade, que nasceu da iniciativa de 50 mil cidadãos e que foi rapidamente desfeita pela esquerda, que há dois anos procurou alterar a lei do aborto. Alheado dos milhares de pessoas que todos os anos participam na Caminhada Pela Vida. Alheado do estudo que todos os anos a Federação Portuguesa Pela Vida apresenta sobre os números do aborto (baseados nos números da DGS, sendo que ainda estamos à espera do 2016...). Alheado dos muitos encontros, conferências, debates que todos os anos são feitos em Portugal sobre o aborto.

O professor Francisco George que me desculpe, mas o único sucesso que pudemos falar na lei do aborto é o seu sucesso em branquear a chaga social que é o aborto livre em Portugal. Se algum dia quiser descer da sua torre de marfim e voltar a tomar contacto com a realidade, o país, e sobretudo as crianças por nascer, agradecem!

quarta-feira, 19 de julho de 2017

A história de duas cidades - Público, 19/07/17



Lisboa é hoje uma cidade na moda. O número de turistas parece não parar de aumentar. Os restaurantes, bares, assim como toda uma panóplia de pequeno comércio trendy florescem. O fim da crise, os Visto Gold e a nova lei das rendas reanimaram o mercado imobiliário. O maciço programa de obras da Câmara Municipal construiu a ideia de uma cidade mais amiga do ambiente e mais moderna.

E estes factos são bons. Evidentemente que todos trazem os seus inconvenientes. É verdade que o programa de obras públicas é muitíssimo questionável. Mas não se pode deixar de reconhecer que Lisboa está hoje mais bonita e mais cosmopolita.

Contudo existe uma outra Lisboa. Uma cidade que não aparece nas revistas de viagens nem nos sites de cultura e lazer. Uma cidade que não sabe o que seja um sunset, uma cerveja artesanal ou um hambúrguer gourmet. Uma cidade para quem as ciclovias são apenas um estorvo para apanhar o autocarro e para quem as latas de conserva não são um objecto vintage mas uma fonte de alimentação.

Existe uma Lisboa onde centenas de idosos vivem sozinhos, em casas decrépitas. Muitos já não são capazes de sair à rua e vivem da caridade de vizinhos, das ajudas da Santa Casa ou de uma instituição de solidariedade social.

Uma Lisboa com bairros pobres (daqueles que não tem a sorte de ser históricos, e por isso ainda não foram invadidos por jovens hipsters), com escolas degradadas, onde a maioria dos moradores trabalha muito e ganha pouco. Bairros com ruas dominadas por pequenos criminosos, onde é difícil romper o círculo da pobreza.

Uma Lisboa com homens e mulheres que vivem na rua. Pessoas com um enormíssimo conjunto de problemas e que sobrevivem graças aos voluntários que todas as noites saiem por essa Lisboa a distribuir refeições e apoio a quem não tem tecto.

E sobretudo uma Lisboa, que é a cidade da maioria dos lisboetas, de pessoas de classe média/média-baixa, cujo os ordenados mal pagam uma renda. Pessoas que perdem horas e horas em transportes públicos lotados. Lisboetas que não arriscam ter filhos na sua cidade, porque escasseiam as creches, porque é impossível ter carro, porque que é muito complicado enfiar duas ou (imagine-se a loucura) três crianças pequenas num autocarro a abarrotar (e ainda menos numa bicicleta).

Existe uma Lisboa real para além da Lisboa das revistas e das reportagens televisivas.  Uma cidade que vive para além da imagem trendy, eco-friendly e cosmopolita. Uma Lisboa de idosos, de famílias, de jovens casais, de adolescentes e crianças que vivem numa cidade com rendas cada vez mais altas, com transportes públicos cada vez mais degradados. Uma cidade onde os apoios sociais dependem de instituições privadas. Uma cidade abandonado pela autarquia.

O trabalho de transformar Lisboa numa cidade que recebe bem quem vem de fora foi feito e bem feito, tendo tornado a capital num ponto de atracção para turistas e investidores estrangeiros. Falta agora transformar Lisboa numa cidade atractiva para os lisboetas.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

O Professor Gentil Martins e a pequena Comissária Política






Elogiar o Professor Gentil Martins é uma tarefa fácil. A sua vida é tão preenchida, tão extraordinária, que qualquer pequena pesquisa no Google nos permite coleccionar factos suficientes para exemplificar a sua excepcionalidade.

Cirugião pediátrico de excelência, participou em mais de 12 mil intervenções cirúgicas. Foi director de serviço de Cirurgia Pediátrica do Hospital da Estefânia durante 34 anos. Fez 7 operações para separar gémeos siameses. Escreveu artigos científicos e proferiu conferências um pouco por todo o mundo. Foi bastonário da Ordem dos Médicos e presidente da Associação Médica Mundial. Criou a primeira Unidade Multidisciplinar de Oncologia Pediátrica a nível mundial no IPO de Lisboa.

Como se a sua carreira médica não fosse suficiente ajudou a fundar ou apoiou várias organizações de apoio social como a ACREDITAR ou a CAVITOP. Foi atleta de várias modalidades,  chegado a representar Portugal nos Jogos Olímpicos.

Teve e tem uma forte intervenção cívica. Foi uma das vozes mais sonantes contra o aborto, manifestou-se sempre contras as barrigas de aluguer e ainda este ano foi o promotor da carta que os cinco antigos bastonários da Ordem dos Médicos escreveram contra a eutanásia.

Aos 86 anos continua a trabalhar sempre disposto a servir o bem comum. E com toda a humildade. Vale a pena contar uma pequena história: no primeiro Prós e Contras sobre o aborto foram mobilizados apoiantes dos dois lados para ir assistir ao programa. O Professor Gentil Martins foi um dos que foi, tendo-se sentado no meio do público. Só após grande insistência da Fátima Campos Ferreira é que aceitou ir para a primeira fila e falar.

Esta fim-de-semana o Professor Gentil Martins foi entrevistado para o Expresso. No seu registo habitual, de homem habituado a dizer o que pensa sem se preocupar com politiquices, deu a sua opinião sobre a homossexualidade.

Como já é habitual logo se criou um escândalo, com a inevitável Isabel Moreira a clamar pela intervenção da Ordem dos Médicos por o Senhor Professor ter proferido palavras contra a ortodoxia contemporânea. Clamor no qual foi acompanhada pelos seus antigos companheiros de blog (cujo o nome dispenso de publicitar) Miguel Vale de Almeida (o ex-deputado que só o foi até ser aprovado o casamento entre pessoas do mesmo sexo, tendo logo de seguida resignado ao mandato) e Ana Matos Pires (uma das já famosas “duas médicas” que vão apresentar queixa à Ordem). Só faltou de facto a Fernando Câncio, para o ramalhete ficar completo.

A nova Comissária Política das causas fracturantes lida com as divergências ao bom velho estalinista: qualquer desvio da ortodoxia (ditada por ela) é um erro que deve ser eliminado. Isabel Moreira não discute opiniões ou ideias. Ela é a detentora da verdade e quem dela discorda deve ser perseguido. E, infelizmente, existem sempre alguns seres, daqueles cuja a vida se resume ás campanhas virtuais e cujo o sonho é viver no eixo Chiado – Príncipe Real – Campo de Ourique, dispostos a seguir fielmente a querida líder.

E chegado aqui não posso deixar de perguntar: quem é Isabel Moreira e porque razão lhe dão os media tanta tempo de antena? Que obra ou feito tem a senhora deputada no seu currículo para ser a guardiã da ortodoxia?

A última vez que eu reparei Isabel Moreira devia toda a sua carreira a três factos: o nome, o apoio do lobby fracturante e a sua enorme falta de educação. Não fora ser a filha rebelde de Adriano Moreira, defensora ardente de qualquer causa fracturante, capaz de insultar e  ameaçar todo os que discordam de si, quem é que ligaria à senhora? A diferença entre Isabel Moreira e os trolls do facebook, é que a ela o Partido Socialista decidiu dar palco.

E vivemos num tempo tão estúpido, tão dominado pelos pequenos escândalos da redes sociais empolados pelos jornalistas, que um homem que serviu o país toda a sua vida sem nunca ocupar qualquer cargo político pode ser perseguido por uma mulher que só ocupou cargos políticos sempre ao serviço dos lobbies seus amigos. E há quem a aplauda e lhe aprecie a “coragem” (de perseguir um senhor velhinho através dos seus “seguidores”…).

Evidentemente o Professor Gentil Martins não precisa da minha defesa. Sobretudo contra pequenos Comissários Políticos que claramente nasceram demasiado tarde para cumprir a sua verdadeira vocação como bufos da PIDE ou informadores do NKVD. 

Contudo há nesta polémica um facto que é importante sublinhar. É que existe em Portugal uma deputada, apoiada pela direcção de um grande partido e apaparicada pelos meios de comunicação social, que emite uma fatwa contra um dos maiores médicos portugueses vivos porque discorda das suas afirmações. Não discute, não debate, limita-se a proclamar que é dever dos médicos fazer queixa de um colega porque este se atreveu a publicamente afirmar aquilo em que acredita.

Para mim a grande questão é: o Partido Socialista adere à perseguição ideológica da sua deputada? Os restantes partidos políticos ficam em silêncio perante a tentativa de censura por parte de uma deputada? A comunicação social vai continuar a fingir que é normal uma politica incitar à perseguição por parte dos seus seguidores de quem não pensa como ela? Chegámos a um tempo onde ninguém ousa publicamente contrariar o lobby representado pela Isabel Moreira?

Mal estamos quando aquilo que alguém pensa é mais escandaloso do que a tentativa de instaurar uma ditadura de pensamento único.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Raquel Abecasis: Uma Nova Esperança.





A política é, ou melhor, deve ser, uma forma de serviço. O empenho político deve ser o empenho na res publica, na coisa pública. 

Hoje a política e os políticos são olhados com descrédito. É comum a frase “eles são todo iguais”. O cidadão comum tendencialmente olha para os políticos e vê neles alguém que apenas procura poder e dinheiro.

É evidente que esta imagem é injusta. Que existem na vida pública muitas pessoas verdadeiramente empenhadas no bem comum. Pessoas para quem a política é uma missão. Infelizmente também existem muitos que se servem da política como forma de ascensão social, de ganhar poder e dinheiro. Os partidos são muitas (demasiadas) vezes porta de acesso para ambiciosos em busca de uma boa (e fácil) carreira.

É por isso sempre uma agradável notícia quando um partido demonstra abertura à sociedade civil. Não querendo ser injusto para todos aqueles que se dedicaram toda a vida ao serviço público, é sempre refrescante ver participar na política activa pessoas que têm uma carreira fora dela. Pessoas para quem a entrada na política é claramente um sacrifício e um serviço que desejam prestar à sociedade.

O CDS tem demonstrado ao longo do tempo uma enorme capacidade de renovação e abertura à sociedade civil. Prova bastante seria a própria Assunção Cristas, que entrou para a política apenas depois de ter participado na campanha contra o aborto em 2007. Mas mais exemplos podiam ser dado como Isabel Galriça Neto ou Paulo Núncio.

Foi por isso com muita alegria que vi que mais uma vez o CDS decidiu apostar na sociedade civil ao apresentar Raquel Abecasis como candidata à Junta de Freguesia das Avenidas Novas em Lisboa.

Raquel Abecais, filha do antigo presidente da Câmara de Lisboa, Nuno Krus Abecasis, é jornalista da Rádio Renascença há quase trinta anos. Construiu uma carreira como jornalista política, sendo reconhecida como uma das grandes especialistas da área. Directora-adjunta da Rádio Renascença, Raquel Abecasis abandona a carreira que construiu para si para se dedicar à causa pública.

E fá-lo com a coragem que lhe é conhecida. Antes de mais já anunciou que vai entregar a sua carteira de jornalista. Ou seja, atira-se para um novo desafio inteiramente. A sua candidatura não é apenas uma “diversão” ou um modo de ganhar notoriedade (que não precisa) mas um verdadeiro compromisso de dedicação à política. 

Depois não se limita a trocar um bom cargo na Renascença por um cargo melhor num qualquer gabinete de ministro ou na direcção de uma qualquer empresa pública, como tantos outros colegas de profissão já fizeram. Raquel Abecasis entra na política apresentando-se a votos, não fazendo depender o seu sucesso político da boa vontade da direcção partidária, mas da decisão do povo. Fica claro que a até agora jornalista não veio à procura de uma qualquer sinecura dispensada pelo poder, mas para servir.

A candidatura de Raquel Abecasis, que assinala o princípio da sua carreira política, é um sinal de esperança. Ainda há no nosso país pessoas dispostas a servir na política, com espírito de missão e sacrifício. Pessoa inteligentes, capazes, com uma carreira estabelecida, que estão dispostas a servir nesse mundo ingrato e difícil que é política nacional.

Com a candidatura de Raquel Abecasis à Junta de Freguesia das Avenidas Nova ganha essa freguesia e o CDS. A freguesia porque tem a possibilidade de eleger uma mulher séria, trabalhadora e competente. Ganha o CDS, não apenas pela candidatura forte que apresenta, mas por passar a contar com a colaboração de uma pessoa inteligente e experiente. Mas sobretudo ganha a política nacional que passa a contar com Raquel Abecassis para trabalhar e servir o país.

Desejo que esta candidatura seja apenas o primeiro passo para uma longa e vitoriosa carreira política de Raquel Abecasis. Portugal e a política portuguesa precisam de políticos assim: corajosos, sérios e dispostos a arriscar servir o bem comum.

Outra vez - Nuno Melo, JN, 08/06/17

Madrid, Londres, Toulouse, Bruxelas, Paris, Copenhaga, Paris, Bruxelas, Nice, Wurzburgo, Rouen, Berlim, Paris, Londres, Estocolmo, Manchester, Londres e novamente Paris, por esta ordem, desde 2004. O horror vai sendo perpetrado na UE por cobardes que vitimam civis indefesos, crentes de que uma guerra se trava assim e o paraíso recompensará a loucura. A cada atrocidade repetem-se proclamações previsíveis - os terroristas não vão mudar os nossos modos de vida - insiste-se que a Europa precisa de gente e reforçam-se as juras pelo multiculturalismo. Depois, continua tudo na mesma.

Na Europa há bairros de cidades onde a Polícia não entra, a Sharia é imposta e radicais identificados pregam o fundamentalismo islâmico, no apelo à destruição dos valores de referência das sociedades ocidentais que lhes dão abrigo. Tudo se aceita, justificado no sacrossanto direito à diferença e à liberdade de expressão. Simplesmente não é normal.

O multiculturalismo implica respeito igualmente mútuo. E a Europa não precisa de gente apenas. Só faz falta quem se integre, aceitando e cumprindo as regras de quem abre as suas portas. Absurdo é que quem acolha, se possa sentir refém na sua própria terra. Mas acontece.

Os atentados registados foram cometidos na maior parte dos casos por cidadãos nascidos na Europa, quase sempre descendentes de imigrantes que deixaram países muçulmanos à procura de melhores condições de vida e em menor número, por terroristas externos. Em comum, a doutrinação multipolar pregada tanto em mesquitas tradicionais como através da sofisticação apelativa da Internet, preenchendo vazios de identidade e dando sentido messiânico à morte.

O fluxo terrorista sai, entra e circula. Deve ser controlado e combatido. Não se consegue com romantismo. Mas há quem se convença que sim.

A renovação do Passenger Name Register, criado para controlo de passageiros em aviões, em colaboração com os EUA, esteve anos a marinar no Parlamento Europeu, por haver quem defendesse que a proteção de dados que as agências de viagens já têm, deveria prevalecer sobre a segurança coletiva. Polícias de muitos países recusam-se a partilhar informações sobre dados que interessam a todos. E a pressão junto às fronteiras externas é tratada indistintamente como "fluxo de refugiados", sem hotspots capazes de os distinguir dos migrantes que legitimamente procuram trabalho, mas são uma realidade diferente e até de terroristas que entram a par. Para muita Esquerda, milhares de pessoas sem controlo nem identificação a atravessar a UE não tem problema. Até um dia.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Que mais poderíamos ter feito a Salman Abedi? - Rui Ramo, Observador, 07/06/17

Os jihadistas que, em menos de quinze dias, mataram 29 pessoas e feriram mais de 100 em Inglaterra, faziam parte de grupos e estavam referenciados pela polícia. Um deles até aparecera num documentário televisivo sobre o islamismo. Em Inglaterra, a polícia vigia mais de 3 000 suspeitos, dos quais 400 terão recebido treino no Médio Oriente. É impossível que nunca tivessem sido notados nas famílias, nos bairros e nas mesquitas, como reconheceu um porta-voz das associações de muçulmanos de Londres. Temos portanto um problema de polícia, mas também das comunidades muçulmanas.

A resposta para o terrorismo é a “repressão”. Mas se o problema for para além de uns quantos niilistas e disser respeito a grandes comunidades, como são as comunidades muçulmanas em muitas cidades da Europa, a repressão chegará a um nível em que mudará as sociedades ocidentais.

A solução estará então na “integração”? Veja-se a história do bombista de Manchester, Salman Abedi. O seu pai era um islamista radical, que obteve refúgio em Inglaterra para escapar à repressão de Kadhafi na Líbia. Abedi pôde assim nascer em segurança na Europa, onde teve acesso a casa, cuidados de saúde, escolas e subsídios para viver confortavelmente. Na Líbia, a família de Abedi era perseguida. Nos outros países do Médio Oriente, ele e os seus familiares teriam sido encurralados num campo de tendas e proibidos de trabalhar, como acontece aos refugiados sírios na Turquia, dependentes da caridade das Nações Unidas. Na Inglaterra, era livre para praticar a sua religião, tinha passaporte, podia votar e ser eleito. Que mais podia a Inglaterra ter feito pela “integração” de Abedi?
Há coisas, porém, que os ocidentais não fizeram para Abedi se sentir integrado. Por exemplo, não mandam as mulheres ficar em casa e só sair à rua escondidas numa burka. Não chicoteiam e condenam à morte homossexuais. Não proibiram o cristianismo nem fecharam as igrejas. Mas se o Ocidente não tenciona transformar-se numa versão do regime salafista da Arábia Saudita, deverá exigir aos muçulmanos que se “adaptem” aos valores, costumes e leis das sociedades de acolhimento?

A tese da “adaptação” tem dois problemas. Um é saber a que Ocidente se devem adaptar. Ao que afirma a tradição cristã e iluminista e o Estado de direito, ou ao que nega e desvaloriza tudo isso como uma abjecção sexista e racista, e reconhece ao jihadismo o direito de retaliação das “vítimas”?
O outro problema é este: as comunidades muçulmanas na Europa estão em expansão e o peso demográfico das suas sociedades de origem não cessa de aumentar perante uma Europa envelhecida e em refluxo populacional. Em 1950, a Europa ocidental tinha 142 milhões de habitantes, e o Norte de África e a Ásia Ocidental, 99; hoje, a Europa ocidental tem 191 milhões, e o Norte de África e a Ásia Ocidental, 489. É portanto irrealista esperar que os muçulmanos europeus se diluam simplesmente nas sociedades de acolhimento. Pelo contrário, é muito provável que continuem a ser inspirados pelas suas sociedades de origem, incluindo pelas ideologias aí vigentes.

Tudo isto quer dizer que há que pensar para além do paroquialismo da “integração”, da “adaptação” ou da “repressão” doméstica. Os europeus precisam talvez de começar a conceber a Europa como parte do mundo do Médio Oriente e do Norte de África, e de reconhecer que a viabilidade do modo de vida ocidental passa por o tornar viável em toda essa região, nomeadamente eliminando os focos de galvanização e treino do terrorismo.

Bem sei: era assim que pensava George W. Bush. Mas só porque Bush pensou assim, não quer dizer que um dia não precisemos de o pensar outra vez. Os muros à Donald Trump não vão chegar. Por menos jeito que nos dê admitir isso, o facto é que o terrorismo islâmico é um problema da globalização, que só poderá ser resolvido globalmente.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

O Apelo de Praga: Coligação para a Renovação Democrática - João Carlos Espada, Observador, 05/06/17

O “Apelo para a Renovação Democrática” foi aprovado em Praga, no passado dia 26 de Maio. Reúne cerca de 60 subscritores individuais (entre os quais me encontro), dos quatro cantos do mundo, com particular incidência nos EUA e na Europa. Anuncia a criação de uma vasta coligação multinacional em defesa dos velhos princípios euro-atlânticos que tantos hoje declaram obsoletos.

São os princípios da democracia liberal e da economia de mercado — que Churchill e Roosevelt subscreveram na Carta do Atlântico de Agosto de 1941. Esses são os princípios que subjazem à ordem liberal multilateral penosamente construída após a II Guerra e vigorosamente reforçada após a queda do Muro de Berlim, em 1989.

Um dos aspectos mais refrescantes deste Apelo é que não contém inovações desnecessárias. Os princípios que defende são os princípios que há mais de dois séculos distinguem as democracias euro-atlânticas:

“O ponto de partida para uma nova campanha em defesa da democracia é a reafirmação dos princípios fundamentais que têm inspirado a expansão da democracia moderna, desde o seu nascimento há mais de dois séculos. Estes princípios têm as suas raízes na dignidade da pessoa humana e na convicção de que a democracia liberal é o sistema político que melhor pode salvaguardar esta dignidade e melhor pode permitir que ela floresça. Entre estes princípios estão os direitos humanos fundamentais, incluindo as básicas liberdades de expressão, associação e religião; pluralismo político e social; a existência de uma vibrante sociedade civil que capacite os cidadãos ao nível local; a eleição regular dos governos através de processos livres, leais, abertos e competitivos; amplas oportunidades para os cidadãos poderem participar e dar voz às suas preocupações; transparência e prestação de contas por parte dos governos, garantidas por fortes freios e contrapesos constitucionalmente consagrados e pelo seu controlo através da sociedade civil; um vigoroso primado da lei, assegurado por um poder judicial independente; uma economia de mercado que seja livre da corrupção e forneça oportunidades para todos; e uma cultura democrática de tolerância, civilidade e não-violência.”

Estes princípios, prossegue o Apelo, estão hoje ameaçados por vários inimigos: o recuo geopolítico do Ocidente, a ressurgência de forças políticas autoritárias, a perda de confiança na eficácia das instituições democráticas, a violência terrorista promovida pelo fundamentalismo islâmico.
Face a estas sérias ameaças, é também muito refrescante que os subscritores não sugiram novas alianças nem inventem novos alinhamentos geo-estratégicos. Pelo contrário, denunciam com firmeza os expansionismos da Rússia e da China e alertam contra as tentações de os ignorar. Sobretudo, os signatários condenam a tendência para anunciar o “fim do Ocidente”. Sublinham que flutuações políticas passageiras no interior das velhas democracias não alteram a aliança fundamental que é necessário preservar e reforçar: a aliança dos democratas e das democracias.

Esta aliança funda-se em valores universais — que as modas intelectuais relativistas têm procurado desacreditar. Mas estes valores universais enraízam-se em tradições nacionais. Citando Vaclav Havel (o único nome citado no “Apelo”), os subscritores recordam que são estas “tradições intelectuais, espirituais e culturais que dão substância e significado aos valores universais da democracia”.

Por este motivo, os subscritores acrescentam que “a cidadania democrática, enraizada nessas tradições nacionais, precisa de ser reforçada e não devemos permitir que seja atrofiada numa era de globalização. A identidade nacional é demasiado importante para ser deixada à manipulação de déspotas e demagogos populistas.”

Por outras palavras, o “Apelo de Praga” reafirma a defesa da tradição ocidental da liberdade sob a lei. Muitos dos seus subscritores estarão no Estoril Political Forum, de 26 a 28 de Junho, dedicado ao mesmo tema. E o sentido da sua mensagem não poderia ser mais claro:

“Os apoiantes da democracia devem unir-se para fazer frente ao recuo da democracia no mundo e para organizar uma nova coligação para a renovação moral, política e intelectual da democracia”.

Mais um bárbaro atentado em Londres, no sábado, torna ainda mais premente o apelo à unidade das democracias. Dentro ou fora da União Europeia, o Reino Unido permanece um parceiro central da aliança euro-atlântica e deve contar com a nossa solidariedade incondicional.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Gerigonça: O Senhor Feliz e o Senhor Contente.





Afirmou ontem António Costa que Passos Coelho é “uma pessoa menos alegre”, ao contrário dele e de Mário Centeno, que pelos visto também é muito alegre. Isto lembra um artigo de Catarina Martins onde explicava que preferia um médico que sorria a um médico com boas notas.

Assim pudemos ver aquele que é um dos maiores problemas da esquerda: o irrealismo. Para a esquerda, especialmente aquela que nos governa, os problemas são sempre questões de narrativa. O problema é que a direita é tristonha, austera, sempre pronta a apontar os problemas. Pelo contrário a esquerda é alegre, gastadora e não liga qualquer importância aos problemas.

O mundo da esquerda é o mundo da aparência, criado pelos jornais e pelos opinion makers. A esquerda vive do humor popular ditado pelos jornalistas.

Enquanto houver dinheiro para gastar, enquanto o Salvador Sobral ganhar a Eurovisão, enquanto o Benfas for campeão, nada há a temer. Basta sorrir e acenar. Se alguém por acaso vier dizer que as coisas não estão bem a resposta é simples: é pessimista, está ressabiado, é pouco alegre, etc., etc., etc… Até toda a gente se esquecer da pergunta.

O problema é que não é só Passos Coelho que é menos alegre que o Primeiro-Ministro, a realidade também o é. Depois de uma profunda crise e de uma duríssima recuperação, o país começa a agora a recuperar. Alavancada pelo turismo, pelos vistos gold, pela recuperação imobiliária permitida pela nova lei das rendas, a nossa economia recomeça a ganhar vida.

Mandaria a prudência que não se deitasse tudo fora em nome da “alegria”. Infelizmente, a esquerda que nos governa está mais interessada nas eleições do que no país. Por isso prefere fingir que tudo está tudo bem com cara alegre para ganhar eleições, do que governar para o bem do país de cara sisuda.

O resultado já sabemos qual é: depois de toda a alegria da esquerda acaba o dinheiro. E logo estará aí a direita, menos alegre e mais sisuda, para tapar outra vez o buraco da “alegria”.