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sexta-feira, 2 de junho de 2017

Portugal tem um grave problema de memória - João Miguel Tavares, Público, 02/06/17

A nomeação de José Júlio Pereira Gomes para responsável máximo das secretas portuguesas indignou Ana Gomes. Todos sabemos que Ana Gomes se indigna com facilidade, mas neste caso os seus argumentos remetem para um acontecimento no qual ela desempenhou um papel exemplar: a luta pela independência de Timor-Leste. Garante a eurodeputada do PS que em Setembro de 1999, após o referendo da autodeterminação, e diante da explosão de violência, o então diplomata Pereira Gomes – chefe da missão de observadores portugueses – impôs à comitiva nacional a saída apressada do país, contra aquilo que era a vontade do Governo de António Guterres, e sem se preocupar em acautelar a segurança de muitos timorenses que haviam trabalhado para os portugueses.
José Júlio Pereira Gomes recusa essa interpretação dos factos (em 2001, aliás, publicou um livro sobre o tema com prefácio de Ramos Horta: O Referendo de 30 de Agosto de 1999 em Timor Leste), mas o jornalista Luciano Alvarez, que estava em Díli nessa altura e teve a coragem de permanecer no território, já o desmentiu – tal como o desmentem as notícias publicadas à época. Daí Ana Gomes afirmar ao DN, com a frontalidade que a caracteriza: “Tenho dúvidas de que o embaixador Pereira Gomes tenha capacidade para aguentar situações de grande pressão. Não inspira confiança e autoridade junto dos seus subordinados nos serviços de informações.”

Aquilo que eu queria sublinhar neste caso tem menos a ver com este confronto de versões em relação a um acontecimento com quase duas décadas, e mais com o desejo de celebrar aquilo a que os ingleses chamam “accountability” – e que, não por acaso, é uma palavra sem boa tradução para português. A mais próxima será “responsabilização”, mas ela não abarca totalmente a sua dimensão ética, de transparência, mas também de prestação de contas. Quando José Gil cunhou o famoso conceito de “não-inscrição” era nisto que estava a pensar: na dificuldade que certos acontecimentos têm para ficarem preservados na nossa memória e para agirmos tendo em conta a sua existência – em vez de fingirmos que nada aconteceu.

A maior culpa para a falta desta “accountability” vai para os jornalistas, dada a tristíssima ausência de uma cultura de verdadeiro escrutínio. Mas também têm culpa os decisores políticos, por raramente praticarem, à boa maneira americana, uma análise séria do currículo e do carácter das pessoas que vão ocupar cargos públicos tão sensíveis quanto a liderança das secretas. Ana Gomes e Luciano Alvarez fizeram o seu dever: recuperaram a memória e ergueram a voz para dizer que José Júlio Pereira Gomes não merece ser nomeado para um cargo tão importante, quando demonstrou não ter a necessária coragem num momento fundamental. Outros seguissem o seu exemplo.

Infelizmente, poucos seguem. Quando olhamos para a equipa de políticos que enviou o país para a bancarrota em 2011 encontramos, como principais colaboradores de Sócrates, Augusto Santos Silva, Vieira da Silva, Pedro Silva Pereira e Teixeira dos Santos. Os dois primeiros são ministros. Os últimos dois comentam nas televisões cheios de gravitas, como se não tivessem desempenhado qualquer papel naquilo que nos aconteceu. E quando vemos a lista de dinossauros que se preparam para regressar à política activa nas próximas autárquicas, de Isaltino Morais a Valentim Loureiro, dá vontade de chorar. A desresponsabilização pelo passado não é apenas grave – é uma das mais terríveis fragilidades do país.

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