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quinta-feira, 1 de junho de 2017

Premiar a incompetência, a preguiça e o desleixo - Joana Petiz, DN, 01/06/17

De conversa com um português emigrado em Miami, ouvi o que acreditava ser impossível escutar de um português de classe média, ex-funcionário público, levado a sair do país com a família já perto dos 50 anos, na pior altura da crise económica e financeira - um daqueles quadros que a esquerda gosta de nos pintar negros para mostrar que o Estado cada vez mais tem de ser pai e puxar todos para debaixo da sua gorda asa. Curiosamente, ainda que se dissesse triste pelo estado de Portugal nesses anos, contava que tinha chegado à Florida a acreditar que o Estado social europeu era tudo, mas rapidamente tinha entendido que, apesar de falhas evidentes, o sistema americano, sobretudo no que a rendimentos e leis laborais diz respeito, era muito mais justo e equilibrado. Por uma razão simples: premeia aqueles que querem trabalhar, que se esforçam, que realmente querem chegar a algum lado. "Se o meu patrão quiser despedir-me amanhã, pode - tal como eu posso trocá-lo. Mas porque o fará se eu sou um ativo importante para a sua empresa?" Em três anos, este português não só não foi corrido como foi promovido a braço direito do patrão. Comprou uma boa casa, dois carros, os miúdos estão na escola, paga um seguro de saúde e sempre que está de folga aproveita para conhecer mais um bocadinho dos Estados Unidos.

Nós por cá continuamos a nem querer ouvir falar nestas coisas. Preferimos congratular-nos com o rendimento garantido sem contrapartidas - qual é o problema de o fazer depender de quem o recebe estar disponível para fazer pequenos trabalhos para o Estado? Em que medida é que isso diminui as pessoas? Em subsídios e apoios para todo o tipo de situações. Em distribuir por todos - mesmo que dois terços deles na verdade não precisassem de qualquer ajuda. Aquela ideia peregrina de livros gratuitos para todos os miúdos até ao 4.º ano que frequentam o ensino público é um bom exemplo de desperdício de recursos públicos onde eles não são precisos.

Não, eu não sou contra o Estado social. Sim, eu entendo e concordo que é fundamental apoiar quem mais precisa - sobretudo os velhinhos, os miúdos, as pessoas com deficiência, no fundo, aqueles que não têm e não podem. Mas é preciso, por exemplo, dar abono de família a quaisquer pais pela simples condição de o serem? Sinceramente, não seria mais fácil juntar-se os milhares de cheques de 25 euros entregues a famílias que não precisam deles e garantir que aquelas a quem qualquer cêntimo realmente faz a diferença teriam mais do que uma ajuda cosmética?

Se é esta a atitude que temos perante os mais fracos - preferimos dar menos a todos do que selecionar quem realmente precisa e a esses garantir mais -, não admira muito que leis laborais também se baseiem na igualdade de tratamento para aquilo que é diferente. E nem queremos ouvir sobre as injustiças que se criam com esse tratamento indiferenciado. Quantos casos conhecemos de empregados (não são trabalhadores) que pouco fazem e no entanto, por ali estarem há mais tempo, recebem várias vezes mais do que quem se senta ao lado e faz o trabalho dos dois? Quantas baixas que não têm razão de existir? Quantos erros e desleixos que passam impunes? E ao mesmo tempo, que incentivos recebe quem se esforça, quem se dedica, quem trabalha no duro?

Enquanto continuarmos a promover uma sociedade que não entende que é preciso tratar de forma diferente o que é distinto, premiar os bons e dar condições aos restantes para tentar fazer melhor, vamos continuar a cair na mesma armadilha, a queimar dinheiro em fogueiras estéreis. Até a gorda asa do Estado ficar totalmente depenada.

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